História da Doença Atual (HDA)
Paciente do sexo masculino, 4 anos, hígido (sem comorbidades prévias), sem histórico de doença recente, sem febre e sem êmese. Trazido ao PS pois os pais não conseguiram despertá-lo pela manhã. Criança habitualmente muito ativa. Sem acesso aparente a medicamentos (devidamente trancados), sem histórico de trauma e sem contatos doentes na pré-escola.

Evolução no Pronto-Socorro
Avaliação Inicial e Triagem
Admissão de paciente com quadro agudo de letargia a esclarecer.
Avaliação Inicial e Triagem
Admissão de paciente com quadro agudo de letargia a esclarecer.
Raciocínio Clínico
Diante de letargia profunda em paciente pediátrico, as prioridades imediatas são a verificação da glicemia capilar para descartar hipoglicemia ou Cetoacidose Diabética (CAD), pesquisa de sinais de irritação meníngea para afastar meningite e avaliação em busca de sinais neurológicos focais para descartar hemorragia ou massa intracraniana. Dado o exame físico benigno, deve-se investigar infecção oculta, distúrbio metabólico ou intoxicação exógena.
Exames e Achados
- Glicemia Capilar (Point-of-care)
- Exame Físico (Neurológico / Pele / Segmento Cefálico)
- Hemograma Completo
- Painel Metabólico Básico (Ureia, Creatinina, Eletrólitos)
- EAS (Urina Tipo 1)
- Triagem Toxicológica na Urina
Achados:
- Glicemia Capilar: 85 mg/dL (Normal)
- Sem rigidez de nuca
- Ausência de lesões cutâneas
- Sem déficits neurológicos focais
- Estado geral bom, aparência bem cuidada e nutrida
- Praticamente não reagiu à punção venosa
Condutas
- Coleta de sangue para análise laboratorial
⮑ Desfecho e Reavaliação
Paciente permanece em sono profundo e não responde a estímulos álgicos leves (punção venosa).
Anamnese Secundária / Avaliação à Beira-leito
Ausência de etiologia clara no exame físico inicial e nos testes rápidos (point-of-care).
Anamnese Secundária / Avaliação à Beira-leito
Ausência de etiologia clara no exame físico inicial e nos testes rápidos (point-of-care).
Raciocínio Clínico
Com sinais vitais estáveis e sem sinais de infecção ou descompensação metabólica evidente (glicemia capilar normal), a hipótese de intoxicação exógena oculta ou exposição ambiental sobe na lista de diagnósticos diferenciais. É imprescindível uma anamnese minuciosa do ambiente doméstico.
Exames e Achados
- Anamnese social e ambiental detalhada com a mãe
Achados:
- Medicamentos encontram-se trancados; a casa tem medidas de proteção infantil.
- Sem álcool exposto no ambiente.
- Sem relato de trauma craniano recente.
- Sem contatos com doentes na pré-escola.
Condutas
⮑ Desfecho e Reavaliação
Estado cl ínico do paciente inalterado. Aguardando os resultados laboratoriais completos.
Revisão Laboratorial e Diagnóstico Definitivo
Retorno de exames laboratoriais normais conjugados à nova anamnese colateral.
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Revisão Laboratorial e Diagnóstico Definitivo
Retorno de exames laboratoriais normais conjugados à nova anamnese colateral.
Raciocínio Clínico
Os exames metabólicos e infecciosos padrão retornaram completamente normais, afastando distúrbios eletrolíticos, insuficiência renal e infecção bacteriana sistêmica. Quando a mãe, tardiamente, recorda que balas de goma (gummies) de maconha do irmão dela estavam no bolso do seu casaco, o quadro clínico se encaixa perfeitamente na síndrome de intoxicação pediátrica por THC.
Exames e Achados
- Revisão de Hemograma, Painel Metabólico Básico e EAS
- Solicitação de urgência (Fast-tracking) do painel toxicológico urinário junto ao laboratório
Achados:
- Hemograma, Painel Metabólico e EAS 100% normais.
- Relato materno: Criança provavelmente consumiu balas de goma com THC.
- Triagem toxicológica retorna positiva para Cannabis.
Condutas
- Observação contínua e medidas de suporte clínico
⮑ Desfecho e Reavaliação
Diagnóstico confirmado de intoxicação exógena acidental por cannabis em paciente pediátrico. O paciente fará o clareamento da droga sob repouso e cuidados de suporte.
Imagens Clínicas

Diagnósticos e Destino
Evolução Diagnóstica
- [Event 1]Alteração do Estado Mental (Indiferenciada) / Letargia
- [Event 3]Ingestão Acidental / Intoxicação por Cannabis (THC)
Destino Atual
Mantido em observação no PS para medidas de suporte, aguardando o clareamento metabólico do THC.
Análise do Casebook
Contexto do Episódio
Este caso reflete um problema altamente prevalente no cenário atual: o aumento vertiginoso de ingestões acidentais por crianças de comestíveis à base de cannabis. Destaca a importância de uma anamnese persistente e de manter um amplo leque de diagnósticos diferenciais quando uma criança se apresenta com alteração de estado mental sem causa aparente.
Avaliação do Médico Assistente
Precisão Médica
A apresentação clínica é extremamente precisa. A intoxicação pediátrica por cannabis frequentemente se manifesta como letargia profunda, hipotonia e falta de responsividade (podendo chegar ao coma ou depressão respiratória em altas doses), em contraste com o típico quadro de 'euforia' (high) ou ansiedade visto em adultos. A normalidade dos sinais vitais (exceto por uma taquicardia ocasional) e da glicemia capilar são características clássicas.
Complicações e Erros
- A triagem toxicológica urinária foi solicitada na avaliação inicial, mas aparentemente atrasou. Na população pediátrica letárgica, a obtenção de urina espontânea é difícil; sem o uso de cateterismo vesical (sondagem), isso pode atrasar significativamente o diagnóstico até que a história clínica esclareça os fatos.
- Na prática real, a depender da profundidade do rebaixamento do nível de consciência e havendo atraso nos toxicológicos, o médico emergencista provavelmente teria indicado uma Tomografia Computadorizada (TC) de crânio de urgência para afastar hemorragia intracraniana, antes mesmo do relato materno sobre as gomas de THC.
Pérolas Clínicas
Diante de qualquer criança previamente hígida e não reativa a estímulos, que apresente sinais vitais e glicemia capilar normais, a intoxicação exógena deve assumir o topo da lista de diagnósticos diferenciais.
Ao colher a anamnese sobre suspeita de ingestão na pediatria, pergunte proativamente e de forma específica sobre 'comestíveis', 'balas de goma', 'vitaminas' e 'suplementos naturais'. Durante a entrevista em momentos de crise, os pais frequentemente não categorizam esses produtos mentalmente como 'remédios' ou 'drogas'.


