História da Doença Atual (HDA)

Paciente do sexo masculino, 4 anos, sem comorbidades prévias, sem quadro infeccioso antecedente, afebril e sem vômitos. Trazido ao PS porque os pais não conseguiram acordá-lo pela manhã. Normalmente é uma criança muito ativa. Sem acesso aparente a medicamentos (que ficam guardados a chave), sem histórico de trauma e sem contatos doentes na pré-escola.

Apresentação do Paciente
Criança de 4 anos, sexo masculino, letárgica à admissão no pronto-socorro.A letargia profunda em um paciente pediátrico é um sinal de alerta (red flag) que exige avaliação imediata para causas com risco de morte, como hipoglicemia, infecção do sistema nervoso central (SNC), hemorragia intracraniana e intoxicações exógenas.

Evolução no Pronto-Socorro

Avaliação Inicial e Triagem

00:31:54S01E01Setor Sul 15
Afebril, PA normal…Dra. Langdon, Dra. Melissa King

Apresentação do paciente com letargia aguda inexplicada.

Detalhes

Raciocínio Clínico

Diante de uma letargia profunda em um paciente pediátrico, as prioridades imediatas são checar a glicemia capilar para descartar hipoglicemia/CAD (Cetoacidose Diabética), avaliar sinais de irritação meníngea para descartar meningite e pesquisar sinais neurológicos focais para descartar hemorragia ou massa intracraniana. Dado o exame físico inespecífico, deve-se investigar infecção oculta, distúrbio metabólico ou intoxicação exógena.

DDx
HipoglicemiaCetoacidose Diabética (CAD)MeningiteEncefaliteIntoxicação ExógenaLesão Intracraniana (TCE)

Exames e Achados

  • Glicemia Capilar (Point-of-care)
  • Exame Físico (Neuro/Pele/ORL)
  • Hemograma Completo
  • Painel Metabólico Básico (Função renal e eletrólitos)
  • EAS (Urina Tipo I)
  • Triagem Toxicológica de Urina
Achados:
  • Glicemia: 85 mg/dL (Normal)
  • Sem rigidez de nuca
  • Sem lesões cutâneas
  • Sem déficits neurológicos focais
  • Bom estado geral, criança com aspecto bem cuidado e nutrido
  • Praticamente não reagiu à punção venosa

Condutas

  • Coleta de sangue para análise laboratorial

Desfecho e Reavaliação

O paciente permanece em sono profundo e irresponsivo a estímulos dolorosos leves (punção com agulha).

Anamnese Secundária / Avaliação à Beira-Leito

00:32:28S01E01Setor Sul 15
Saturação de O2 normal, pulso e PA normais.Dra. Langdon, Dra. Melissa King

Falta de etiologia clara no exame físico inicial e nos testes rápidos de beira-leito.

Detalhes

Raciocínio Clínico

Com sinais vitais estáveis e sem sinais de infecção ou descompensação metabólica óbvia (glicemia normal), a suspeita de uma intoxicação exógena oculta ou exposição ambiental ganha força no diagnóstico diferencial. É necessária uma anamnese rigorosa do ambiente doméstico.

DDx
Ingestão Acidental (Medicamentos prescritos, Medicamentos isentos de prescrição/OTC, produtos de limpeza, álcool)Traumatismo Craniano Oculto

Exames e Achados

  • Anamnese social e ambiental detalhada com a mãe
Achados:
  • Medicamentos guardados a chave; casa à prova de crianças.
  • Nenhum álcool exposto.
  • Nenhum trauma craniano recente relatado.
  • Sem contatos doentes na pré-escola.

Condutas

Desfecho e Reavaliação

O estado clínico do paciente permanece inalterado. Aguardando resultados laboratoriais completos.

Revisão de Exames e Diagnóstico Definitivo

00:43:26S01E01Setor Sul 15 / Posto Médico do PS
EstáveisDra. Langdon

Retorno de resultados laboratoriais normais associado a uma nova história colateral.

+1Detalhes

Raciocínio Clínico

Os exames metabólicos e infecciosos padrão retornaram completamente normais, descartando distúrbios hidroeletrolíticos, insuficiência renal e infecção bacteriana sistêmica. Quando a mãe posteriormente lembra que as 'gomas' de cannabis de seu irmão estavam no bolso do seu casaco, o quadro clínico se alinha perfeitamente com uma intoxicação pediátrica por THC.

DDx
Intoxicação por Cannabis

Exames e Achados

  • Revisão do Hemograma, Perfil Metabólico e EAS
  • Processamento em caráter de urgência da Triagem Toxicológica de Urina junto ao laboratório
Achados:
  • Hemograma, Perfil Metabólico e EAS 100% normais.
  • Confissão materna: A criança provavelmente consumiu gomas de THC.
  • O toxicológico de urina retorna positivo para Cannabis.

Condutas

  • Observação contínua e tratamento de suporte

Desfecho e Reavaliação

Diagnóstico confirmado de ingestão pediátrica acidental de cannabis. O paciente irá metabolizar a toxina dormindo, sob cuidados de suporte.

Parecer do Serviço Social e Atualização de Conduta

00:18:18S01E03Corredor do PS
EstáveisDra. Melissa King, Assistente Social Kiara

Coordenação pós-diagnóstico para uma alta segura e avaliação do ambiente familiar.

Detalhes

Raciocínio Clínico

Com o diagnóstico médico de ingestão acidental de THC estabelecido e a estabilização do paciente, a prioridade muda para a segurança psicossocial. O acionamento obrigatório do Serviço Social ou Conselho Tutelar é o padrão de atendimento para ingestões pediátricas acidentais, a fim de garantir que o ambiente doméstico seja seguro e prevenir futuras ocorrências. O objetivo é a intervenção de apoio e verificação de segurança (via Serviços de Proteção) em vez de um envolvimento policial estritamente punitivo.

Exames e Achados

  • Revisão do Caso pelo Serviço Social
Achados:
  • O paciente está estável, mas requer observação intra-hospitalar contínua.
  • O ambiente doméstico exige uma verificação de segurança, mas nenhuma ação policial imediata é considerada necessária.

Condutas

  • Internação na enfermaria de Pediatria para observação clínica contínua.
  • Visita domiciliar agendada pelo Serviço de Proteção à Criança e à Família (Conselho Tutelar).

Desfecho e Reavaliação

Espera-se que o paciente fique bem e se recupere totalmente. Os pais estão com o paciente no andar de cima, aguardando o acompanhamento da proteção à criança e um possível encaminhamento para terapia de casal.

Diagnósticos e Destino

Evolução Diagnóstica

  • [Event 1]Alteração do Estado Mental (Indiferenciada) / Letargia
  • [Event 3]Ingestão Acidental de Cannabis (THC)

Destino Atual

Internado na enfermaria de Pediatria para observação. Visita domiciliar agendada pelo Conselho Tutelar / Serviços de Proteção para garantir a segurança do ambiente.

Análise do Casebook

Contexto do Episódio

Este caso reflete um problema real e altamente relevante: o aumento acentuado nas ingestões pediátricas acidentais de comestíveis de cannabis (edibles). Ele destaca a importância de uma anamnese persistente e da manutenção de um diagnóstico diferencial amplo quando uma criança apresenta alteração inexplicada do estado mental. O caso termina com um foco realista nas consequências psicossociais, enfatizando o papel dos assistentes sociais e das redes de apoio familiar no pronto-socorro após um incidente de negligência infantil acidental.

Avaliação do Médico Assistente

Precisão Médica

A apresentação clínica é altamente precisa. A ingestão pediátrica de cannabis frequentemente se apresenta como letargia profunda, hipotonia e irresponsividade (às vezes até coma ou depressão respiratória em altas doses), em vez do 'barato' eufórico ou ansioso típico visto em adultos. Sinais vitais normais (exceto por taquicardia ocasional) e glicemia capilar normal são sinais clássicos nesse contexto.

Complicações e Erros
  • A triagem toxicológica de urina foi solicitada na avaliação inicial, mas aparentemente sofreu atraso. Em pacientes pediátricos, a obtenção de uma amostra de urina pode ser difícil se estiverem letárgicos e não estiverem urinando espontaneamente, o que frequentemente atrasa o diagnóstico, a menos que se utilize cateterismo vesical (sondagem) ou a história clínica correta seja obtida.
  • Na realidade, dependendo da gravidade da letargia e do possível atraso no toxicológico, um médico poderia ter agilizado uma Tomografia Computadorizada (TC) de crânio para descartar sangramento intracraniano antes que a mãe se lembrasse das gomas.

Pérolas Clínicas

Em qualquer criança previamente hígida, irresponsiva, com sinais vitais normais e glicemia capilar normal, a intoxicação exógena (toxíndrome) deve estar no topo do diagnóstico diferencial.

Ao realizar a anamnese de suspeita de ingestão pediátrica, pergunte especificamente sobre 'comestíveis', 'gomas', 'vitaminas' e 'suplementos'. Muitas vezes, os pais não classificam mentalmente esses itens como 'drogas' ou 'medicamentos' durante o questionamento inicial.

Em casos de intoxicação pediátrica acidental, o parecer do serviço social e/ou o encaminhamento ao Conselho Tutelar (Serviços de Proteção à Criança) é o padrão de atendimento. O foco principal é garantir que o ambiente doméstico seja seguro e fornecer educação e orientação aos pais, adotando uma abordagem predominantemente de apoio em vez de estritamente punitiva.

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