História da Doença Atual (HDA)

Paciente do sexo masculino, 42 anos, trazido pelo SAMU. Pulou nos trilhos do metrô para resgatar uma mulher que havia caído. Após retirá-la com sucesso, escorregou ao tentar subir de volta à plataforma, caiu para trás e sofreu trauma cranioencefálico. A equipe do SAMU notou respiração agônica. Não obtiveram sucesso na intubação no local e inseriram uma Máscara Laríngea (ML) antes do transporte.

Apresentação do Paciente
Paciente chegando via SAMU com Máscara Laríngea (ML) in situ.Demonstra o manejo pré-hospitalar de via aérea quando a intubação endotraqueal definitiva falha em campo devido ao trauma ou restrição de posicionamento.

Evolução no Pronto-Socorro

Triagem e Ressuscitação Inicial

00:10:56S01E01Sala de Trauma 1
FA no monitor, Pupilas 4mm fotorreagentes.Dr. Robinavitch, Dra. Melissa King

Chegada do trauma diretamente via SAMU.

+1Detalhes

Raciocínio Clínico

Paciente apresenta respiração agônica e Glasgow 5, necessitando de controle definitivo imediato da via aérea. Contudo, há sangramento excessivo em orofaringe. Associado ao achado de fibrilação atrial no monitor, há alta suspeita clínica de que o paciente esteja em anticoagulação terapêutica (ex: uso de DOAC). É necessário preparar a Sequência Rápida de Intubação (SRI) e reversão farmacológica simultânea em caso de hemorragia intracraniana.

DDx
Traumatismo Cranioencefálico (TCE) GraveHemorragia Intracraniana (exacerbada por anticoagulação)Fratura de Base de CrânioTrauma Raquimedular Cervical

Exames e Achados

  • E-FAST (Avaliação Focada Estendida com Sonografia para Trauma)
Achados:
  • Murmúrio vesicular presente e simétrico bilateralmente.
  • Pupilas de 4mm e fotorreagentes.
  • Observado sangramento excessivo em orofaringe.
  • Fibrilação atrial observada no monitor cardíaco.

Condutas

  • Prescritos medicamentos para SRI: 120mg de Cetamina, 80mg de Rocurônio.
  • Equipe instruída a ficar de prontidão com Complexo Protrombínico de 4 Fatores (CPP).
  • Equipe instruída a buscar prontuários médicos quanto ao uso de DOACs.

Desfecho e Reavaliação

Paciente preparado para intubação definitiva. Hemodinâmica tolera a avaliação inicial.

Manejo de Via Aérea e Neuroproteção

00:13:16S01E01Sala de Trauma 1
Glasgow 5.Dr. Robinavitch, Dra. Melissa King

Necessidade de via aérea definitiva e neuroproteção antes dos exames de imagem.

+2Detalhes

Raciocínio Clínico

A imobilização da coluna cervical impede a flexão/extensão do pescoço, tornando as cordas vocais muito anteriores à laringoscopia. Um fio guia rígido moldado em formato de 'taco de hóquei' dentro do tubo endotraqueal é necessário para navegar esta via aérea difícil. Devido à alta suspeita de sangramento intracraniano em uso de anticoagulantes, a administração empírica de CPP de 4 fatores (fatores de coagulação II, VII, IX e X) é superior ao PFC devido à velocidade de reconstituição e menor volume. O Manitol é administrado para reduzir a pressão intracraniana por meio de diurese osmótica antes do paciente ir para a tomografia.

DDx
Hematoma Subdural em expansãoHematoma EpiduralHemorragia Intraparenquimatosa

Exames e Achados

Achados:
  • Cordas vocais anteriorizadas devido às precauções de coluna cervical que impedem a extensão do pescoço.

Condutas

  • Intubação orotraqueal utilizando tubo endotraqueal com fio guia moldado em 'taco de hóquei'.
  • Administração de CPP de 4 fatores.
  • Administração de 80g de Manitol.
  • Paciente transportado para a TC de Crânio.

Desfecho e Reavaliação

Via aérea assegurada com sucesso. Paciente estabilizado o suficiente para transporte à radiologia.

Revisão de Exames de Imagem e Conduta

00:16:55S01E01Pronto-Socorro Principal / Área de Trauma
Estável em ventilação mecânica.Dr. Robinavitch, Dr. Langdon

Resultados da TC de Crânio liberados pela radiologia.

Detalhes

Raciocínio Clínico

A tomografia revela um pequeno sangramento intraparenquimatoso temporal esquerdo, sem evidência de hematoma epidural ou subdural e, principalmente, sem desvio de linha média. Isso indica que a lesão primária é relativamente pequena e as intervenções precoces (Manitol/CPP) podem ter prevenido uma expansão catastrófica. O paciente necessita de monitorização neurológica estrita na UTI, anticonvulsivantes profiláticos (já que convulsões pós-traumáticas aumentam a PIC) e tomografias seriadas para garantir a estabilidade do sangramento.

DDx
Hemorragia Intraparenquimatosa EstávelExpansão hemorrágica tardia

Exames e Achados

  • Tomografia Computadorizada (TC) de Crânio sem contraste
Achados:
  • Pequeno sangramento intraparenquimatoso temporal esquerdo.
  • Sem hematoma epidural.
  • Sem hematoma subdural.
  • Sem desvio de linha média.

Condutas

  • Dose de ataque de Keppra (Levetiracetam) prescrita para profilaxia de crises convulsivas.
  • Programada nova TC de Crânio em 3 horas (ou imediatamente caso ocorram alterações pupilares).
  • Solicitada vaga na UTI (interconsulta com Terapia Intensiva).

Desfecho e Reavaliação

Paciente permanece em estado crítico com prognóstico neurológico reservado ('talvez ele acorde, talvez não'), porém a anatomia cerebral no momento encontra-se estável.

Diagnósticos e Destino

Evolução Diagnóstica

  • [00:10:56]Traumatismo Cranioencefálico Grave (Glasgow 5)
  • [00:10:56]Fibrilação Atrial com provável anticoagulação sistêmica
  • [00:16:55]Hemorragia Intraparenquimatosa Temporal Esquerda

Destino Atual

Intubado, estabilizado e retido no Pronto-Socorro (boarding) enquanto aguarda um leito de UTI. Plano de repetir a TC de Crânio em 3 horas.

Análise do Casebook

Contexto do Episódio

Sam Wallace funciona como o caso de trauma de alta acuidade e forte apelo emocional para o episódio piloto. Como um 'Bom Samaritano' que arriscou sua vida por um desconhecido e acabou sofrendo uma lesão cerebral devastadora, sua narrativa sublinha a natureza imprevisível e muitas vezes trágica da medicina de emergência. O caso também evidencia o problema sistêmico da superlotação hospitalar (boarding), já que ele precisa permanecer intubado na sala de emergência aguardando a liberação de um leito de UTI.

Avaliação do Médico Assistente

Precisão Médica

O manejo médico retratado é altamente preciso e reflete as melhores práticas de medicina de emergência. O raciocínio clínico de deduzir que um paciente traumatizado com Fibrilação Atrial e sangramento oral atípico provavelmente está em uso de DOAC é uma excelente sacada diagnóstica. A decisão de administrar de forma empírica o CPP de 4 fatores (que repõe os fatores II, VII, IX e X) e o Manitol antes da tomografia é uma conduta agressiva, porém extremamente realista para um politraumatizado com rápida deterioração e suspeita de sangramento intracraniano expansivo. Ademais, o diálogo da intubação ('cordas vocais muito anteriores... mantenha o taco de hóquei reto para cima') descreve com exatidão a técnica de moldar um fio guia rígido dentro da cânula endotraqueal para superar a dificuldade de uma via aérea anteriorizada pelas restrições de movimento da coluna cervical.

Complicações e Erros
  • Não houve erros médicos diretos cometidos pela equipe hospitalar; entretanto, o caso teve uma complicação pré-hospitalar devido à incapacidade do SAMU de garantir uma via aérea definitiva, resultando no uso paliativo de uma Máscara Laríngea (ML).
  • O sangramento orofaríngeo excessivo, provocado pelo provável uso de anticoagulantes, dificultou substancialmente a visualização das cordas vocais durante a laringoscopia.

Pérolas Clínicas

Em pacientes politraumatizados que se apresentam com ritmo cardíaco irregular (Fibrilação Atrial), mantenha um alto índice de suspeita clínica para o uso de anticoagulação sistêmica, o que aumenta de forma drástica o risco de hemorragias intracranianas catastróficas.

Ao estabelecer uma via aérea definitiva em pacientes vítimas de trauma com suspeita de lesão da coluna cervical, a tradicional 'posição olfativa' (sniffing position) é contraindicada. O uso de recursos avançados, como um fio guia rígido angulado em 'taco de hóquei' ou um bougie com ponta coudé, torna-se essencial para intubar vias aéreas anteriorizadas.

O Complexo Protrombínico de 4 Fatores (CPP) promove uma reversão rápida e em baixo volume para antagonistas da Vitamina K (Warfarina) e certos Anticoagulantes Orais Diretos (DOACs), configurando uma intervenção farmacológica de salvamento em hemorragias com risco de morte iminente, mesmo antes da confirmação imagenológica.

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