História da Doença Atual (HDA)
O paciente acordou às 02:00h da manhã com intensa dor abdominal superior que durou aproximadamente uma hora e se resolveu espontaneamente. Relata ter ingerido uma refeição farta e gordurosa (bife no Sullivan's) no aniversário de sua esposa na noite anterior. Nega febre ou vômitos. Possui histórico de hipertensão arterial, mas esqueceu de tomar o enalapril pela manhã.

Evolução no Pronto-Socorro
Avaliação Inicial e POCUS
Triagem inicial à beira leito e avaliação pelo interno de medicina em paciente com dor abdominal já resolvida.
+1
Avaliação Inicial e POCUS
Triagem inicial à beira leito e avaliação pelo interno de medicina em paciente com dor abdominal já resolvida.
Raciocínio Clínico
O interno apresenta um 'viés de ancoragem' rápido diante da apresentação clássica de cólica biliar: dor intensa e autolimitada em hipocôndrio direito/epigástrio após refeição gordurosa. Um ultrassom à beira leito (POCUS) confirma um cálculo biliar, consolidando seu viés. Contudo, o médico preceptor intervém adequadamente para ampliar os diagnósticos diferenciais, observando que o infarto agudo do miocárdio (IAM) de parede inferior pode se apresentar como dor abdominal superior (epigastralgia), o que é particularmente relevante em um homem com histórico de hipertensão.
Exames e Achados
- Exame Físico (Abdome flácido e indolor)
- POCUS de vesícula biliar à beira leito
- Provas de Função Hepática (TGO, TGP, FA, GGT) solicitadas
- Enzimas pancreáticas (Lipase) solicitadas
- ECG de 12 derivações solicitado
Achados:
- O POCUS revela um único cálculo no interior da vesícula biliar.
Condutas
- Paciente orientado sobre dieta pobre em gorduras para controle dos sintomas.
⮑ Desfecho e Reavaliação
O paciente encontra-se assintomático e receptivo aos conselhos dietéticos. Aguardando exames laboratoriais e resultado do ECG para descartar causas cardiológicas.
Imagens Clínicas

Reavaliação e Discussão do Caso
Resultados do ECG disponíveis; o interno apresenta o caso atualizado ao assistente.
Reavaliação e Discussão do Caso
Resultados do ECG disponíveis; o interno apresenta o caso atualizado ao assistente.
Raciocínio Clínico
O ECG não mostra alterações isquêmicas agudas, reduzindo a suspeita de infarto agudo do miocárdio. A equipe se sente tranquilizada pelo ECG normal e exame abdominal benigno. Agora aguardam apenas as provas de função hepática e a lipase para concluir a investigação do trato gastrointestinal (TGI) antes da definição da conduta (alta).
Exames e Achados
- ECG de 12 derivações (Realizado e interpretado)
Achados:
- O ECG não apresenta sinais de isquemia aguda.
Condutas
- Oferecido gelo (paciente recusou).
⮑ Desfecho e Reavaliação
O paciente mantém-se confortável e sem dor. Mostra-se impaciente para ir embora e pede bebida alcoólica em tom de brincadeira.
Parada Cardíaca (PCR) e Ressuscitação
Paciente encontrado arresponsivo em uma maca não monitorizada no corredor, com tempo de parada prévio (downtime) desconhecido.
+1
Parada Cardíaca (PCR) e Ressuscitação
Paciente encontrado arresponsivo em uma maca não monitorizada no corredor, com tempo de parada prévio (downtime) desconhecido.
Raciocínio Clínico
A equipe encontra o paciente sem pulso, com tempo de anóxia desconhecido, e inicia o algoritmo de Suporte Avançado de Vida em Cardiologia (ACLS) para ritmo não chocável (Assistolia). Um membro da equipe pergunta se devem chocar, o que é negado corretamente – não se choca assistolia. Para minimizar as interrupções nas compressões torácicas, decidem passar uma Máscara Laríngea (ML) ao invés de tentar a intubação orotraqueal (IOT). A equipe revisa sistematicamente as causas reversíveis ('5Hs e 5Ts'), utilizando o POCUS intraparada para descartar tamponamento cardíaco e pneumotórax hipertensivo. A hipercalemia é considerada, mas descartada devido a um exame prévio de potássio normal.
Exames e Achados
- Checagem de Ritmo (Assistolia)
- Exame Pupilar (Pupilas midriáticas e fixas/arreativas)
- POCUS intraparada (Ecocardiograma e Ultrassom Pulmonar)
Achados:
- O monitor exibe Assistolia.
- Pupilas midriáticas e fixas, indicando hipóxia cerebral prolongada.
- O POCUS não revela atividade cardíaca, sem derrame pericárdico e sem sinais de pneumotórax hipertensivo.
Condutas
- Início de RCP de alta qualidade
- Inserção de Máscara Laríngea (ML)
- Epinefrina 1mg IV em bolus x3 (a cada 3-5 minutos)
⮑ Desfecho e Reavaliação
O paciente permanece em assistolia apesar dos esforços prolongados de ressuscitação e das três doses de epinefrina. Dado o tempo de anóxia desconhecido e as pupilas arreativas, a equipe se prepara para encerrar a parada.
Imagens Clínicas

Término da Ressuscitação
Falha na obtenção do Retorno da Circulação Espontânea (RCE) após ACLS prolongado.
Término da Ressuscitação
Falha na obtenção do Retorno da Circulação Espontânea (RCE) após ACLS prolongado.
Raciocínio Clínico
Com 10 minutos de RCP ativa no box, uma suspeita de 30 minutos de parada prévia no corredor e 5 minutos decorridos desde a 3ª dose de epinefrina, a médica assistente determina que medidas adicionais de ressuscitação são fúteis (distonásia).
Exames e Achados
Achados:
- Assistolia persistente sem resposta às intervenções químicas ou mecânicas.
Condutas
- Compressões torácicas interrompidas
- Esforços de ressuscitação encerrados
- Declarado o horário do óbito
⮑ Desfecho e Reavaliação
Paciente em óbito.
Morbimortalidade (Debriefing do Caso)
Debriefing da equipe pós-PCR para revisar o raciocínio clínico e apoiar emocionalmente os profissionais.
Morbimortalidade (Debriefing do Caso)
Debriefing da equipe pós-PCR para revisar o raciocínio clínico e apoiar emocionalmente os profissionais.
Raciocínio Clínico
A equipe analisa a linha do tempo e o diagnóstico que passou despercebido. Revela-se que a dor abdominal do paciente não era cólica biliar, mas sim angina instável secundária à doença arterial coronariana (DAC) subjacente, que culminou em um IAM maciço. Um membro da equipe argumenta que o paciente deveria ter sido colocado em monitorização cardíaca. A médica assistente defende a conduta (raciocínio clínico): o paciente realizou um ECG e teve dosagem de troponina, gerando um escore HEART de 3. Um escore HEART de 3 equivale a 1% de risco de sofrer um Evento Cardiovascular Adverso Maior (MACE) nos próximos 30 dias. O padrão de cuidado para esta pontuação é a alta com acompanhamento ambulatorial. A médica ressalta que 'nenhum médico no mundo poderia ter previsto isso'.
Exames e Achados
- Revisão Retrospectiva do Caso
Achados:
- Diagnóstico clínico final estabelecido como Angina Instável evoluindo para Infarto Agudo do Miocárdio maciço.
Condutas
- Debriefing clínico
- Apoio emocional oferecido ao interno Whitaker
⮑ Desfecho e Reavaliação
Caso encerrado. A equipe guarda um momento de reflexão silenciosa antes de retornar ao trabalho.
Diagnósticos e Destino
Evolução Diagnóstica
- [S01E01]Cólica Biliar
- [S01E01]Descartar Síndrome Coronariana Aguda (SCA)
- [S01E02]Parada Cardíaca Súbita (Assistolia)
- [S01E03]Angina Instável / Doença Arterial Coronariana (DAC)
- [S01E03]Infarto Agudo do Miocárdio Maciço
Destino Atual
Óbito. A ressuscitação foi encerrada após assistolia prolongada. O debriefing do caso na reunião de Morbimortalidade confirmou que o evento fatal foi um IAM maciço secundário a angina instável, apesar de o paciente ter apresentado um escore HEART tranquilizador de 3.
Análise do Casebook
Contexto do Episódio
Serve como um clássico momento de ensino no Pronto-Socorro para o estudante do 6º ano de medicina (interno), Dennis Whitaker. Demonstra a hierarquia da educação médica e a necessidade de supervisão sênior para evitar o encerramento prematuro de um diagnóstico (fechamento precoce). No episódio 2, o caso toma um rumo trágico. Milton serve como uma dura lição narrativa sobre os perigos da 'medicina de corredor' e a imprevisibilidade do PS. Sua morte súbita sem monitorização ressalta a realidade de que pacientes 'estáveis' podem descompensar abruptamente. No episódio 3, o caso se transforma em uma provação emocional profunda para Whitaker, ensinando-lhe o fardo mais pesado da profissão: às vezes, você faz tudo certo, segue o protocolo e o paciente morre mesmo assim.
Avaliação do Médico Assistente
Precisão Médica
Altamente preciso. Estudantes de medicina frequentemente sucumbem ao 'viés de ancoragem' quando um paciente se apresenta com uma história clássica de livro (refeição gordurosa desencadeando dor no hipocôndrio direito) e um exame confirmatório (cálculo biliar no POCUS). É um ensinamento padrão no PS sempre solicitar um ECG em pacientes adultos, especialmente com fatores de risco cardiovascular como hipertensão, que apresentam dor abdominal superior para descartar um IAM de parede inferior. A sequência de parada cardíaca no S01E02 também é altamente fiel aos protocolos de ACLS do mundo real. A equipe reconhece corretamente a assistolia como um ritmo não chocável, prioriza as compressões contínuas optando por uma ML (Máscara Laríngea) em vez de intubação, administra epinefrina nos intervalos adequados (3-5 minutos) e utiliza o POCUS intraparada para avaliar as causas reversíveis (os '5Hs e 5Ts' como pneumotórax hipertensivo ou tamponamento). No episódio 3, o uso e a discussão do escore HEART são executados perfeitamente. Um escore de 3 é de fato o limite clínico para 'baixo risco' (0-3), e o padrão de cuidado frequentemente indica alta com acompanhamento ambulatorial.
Complicações e Erros
- Fechamento Prematuro do Diagnóstico / Viés de Ancoragem: O interno Dennis Whitaker diagnosticou cólica biliar e estava preparado para dar alta ao paciente sem considerar etiologias cardíacas potencialmente fatais. A presença de um cálculo biliar não garante que ele seja a origem da dor (colelitíase assintomática é muito comum).
- Leito de Corredor Não Monitorizado: Transferir um homem de 68 anos, com fatores de risco cardíaco e um quadro recente de dor em abdome superior (equivalente anginoso), para um leito de corredor sem monitorização, é uma falha sistêmica crítica. Isso levou a uma parada cardíaca não presenciada e de 'tempo de anóxia desconhecido', reduzindo drasticamente suas chances de sobrevivência.
Pérolas Clínicas
Sempre solicite um ECG em idosos ou pacientes com fatores de risco cardíaco que apresentam dor em andar superior do abdome ou epigastralgia para descartar uma Síndrome Coronariana Aguda.
Cuidado com os incidentalomas: achar um cálculo biliar no ultrassom é muito comum; certifique-se de descartar outros diagnósticos diferenciais críticos antes de atribuir a dor do paciente unicamente à pedra.
A cólica biliar normalmente dura de 1 a 5 horas e é caracterizada por uma dor contínua e intensa. Se a dor persistir por mais tempo, suspeite de progressão para colecistite aguda, coledocolitíase ou pancreatite biliar.
Um ECG normal não descarta definitivamente Síndrome Coronariana Aguda (SCA) ou outros eventos cardíacos agudos; as alterações elétricas podem ser dinâmicas, tardias ou ausentes dependendo do território miocárdico afetado.
A 'medicina de corredor' introduz riscos gravíssimos. Pacientes com dor torácica/abdominal indiferenciada e com potencial de gravidade (com fatores de risco cardíaco) devem permanecer sob monitorização contínua por telemetria.
Durante a RCP, minimizar as interrupções das compressões torácicas é primordial. Colocar uma via aérea supraglótica (como uma Máscara Laríngea) é frequentemente preferível à intubação orotraqueal se esta causar uma pausa prolongada.
Em AESP/Assistolia, sempre repasse os '5Hs e 5Ts' usando o ultrassom à beira leito (POCUS) para identificar rapidamente causas reversíveis como Tamponamento Cardíaco, Pneumotórax Hipertensivo ou hipovolemia grave.
O Escore HEART (História, ECG, Idade, Fatores de Risco, Troponina) estratifica o risco de pacientes com dor torácica ou equivalentes anginosos. Uma pontuação de 0-3 indica baixo risco (aprox. 1-2%) de Evento Cardiovascular Adverso Maior (MACE) em 6 semanas, o que frequentemente ampara uma alta segura com acompanhamento ambulatorial.
O Escore HEART atribui de 0 a 2 pontos para cinco categorias: História (nível de suspeita), ECG (anormalidades), Idade (limites em 45 e 65 anos), Fatores de Risco (contagem dos fatores de risco cardíaco) e Troponina (multiplicador do limite superior). A interpretação orienta a conduta: 0-3 pontos significa Baixo Risco (MACE ~1-2%, normalmente seguro para alta), 4-6 pontos significa Risco Moderado (MACE ~12-16%, necessitando de observação/exames adicionais), e 7-10 pontos significa Alto Risco (MACE ~50-65%, exigindo estratégias invasivas precoces).


